Pensando alto

Publicado em 08/06/2015
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Estamos mesmo conectados?

Se por um lado as invenções tecnológicas nos colocam num patamar acima da evolução humana e demonstram a engenhosa capacidade criativa do homem, por outro, sustentam um discurso massificado e generalizado. A prova disso é o uso abusivo da tecnologia e todos os recursos que ela propicia: estar conectado o tempo todo é a síntese disso. De cara encontramos aí um paradoxo: o excesso de possibilidades de comunicação aponta para a falta dela fora do mundo digital. Afinal, não é raro estarmos em um ambiente social e logo notarmos casais ou grupos de amigos em que cada um está mexendo em seu celular sem trocar uma palavra com a pessoa que está ao seu lado ou na sua frente. E isso não acontece sem consequências.

Os laços afetivos de amor ou amizade e até mesmo os laços profissionais, refletem a linha tênue entre o bom uso do artifício tecnológico e o abuso excessivo que pode prejudicar a singularidade do sujeito. A veiculação de informações – elevadas a categoria de saber – que circulam através dos celulares e de todas as redes sociais têm servido como uma cartilha “politicamente correta” que todos devem seguir à risca se quiser obter sucesso na vida, encontrar um amor, e etc. e é aí que o tiro sai pela culatra, pois uma vez que você não se enquadra nesses padrões ideais, o que resta é a angústia.

As redes sociais têm servido como a “praça pública” dos tempos dos filósofos gregos, em que encontramos debates de opiniões públicas e sociais. No entanto, a superexposição de si e do outro e o imediatismo das respostas se unem ao jargão do mundo globalizado em que “time is money” e que, com frequência, impulsiona o sujeito a agir bruscamente. Ora, o tempo de fato vem cobrar seu valor quando é preciso se deparar com a responsabilidade de cada um diante dos efeitos de seus atos.

Na clínica psicanalítica, recebemos muitos pacientes que se queixam dos frequentes desentendimentos despertados por “mal entendidos” – e por que não dizer, “mal-ditos” – que se estabelecem em conversas virtuais. E, mais ainda, queixam-se de que os encontros ao acaso, ou até mesmo aqueles com hora marcada, estão ficando cada vez mais escassos e mecânicos. Ao excluir o corpo pulsante marcado pela historia singular de cada um, o que resta são apenas manejos ilusórios e superficialidades. Uma análise preconiza e convida a algo que podemos nomear de “dar-se um tempo”.

O amor e suas possibilidades, a amizade e seus encantamentos, as relações e suas dificuldades... Tudo isso têm se tornado uma multiplicação de clichês que impossibilitam a invenção de cada um respeitando sua singularidade. As falas de alcova foram substituídas por mensagens cifradas e mal escritas enviadas ou desviadas por um terceiro tecnológico. O poeta que ressoa em nossos ouvidos com o seu “o que será que será?” perde espaço para o imperativo categórico do “tem que ser!” e ficamos sem o desfrute da possibilidade do que não tem nome e nem nunca terá...

Por Heloisa Shimabukuro

heloisasds@hotmail.com

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